Adufes repudia resolução da Ufes e mantém defesa da suspensão integral do calendário acadêmico

A Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) teve a aprovação do Conselho Universitário (CUn) nessa segunda-feira (6) para prorrogar a suspensão das aulas da graduação e pós-graduação até o próximo dia 30. No entanto, a reformulação da Resolução  04/2020, abre a possibilidade para “atividades de apoio ao ensino-aprendizagem de caráter opcional” durante o período de quarentena.

Na tentativa de convencer as/os  conselheiras/os sobre a não adequação dessa medida, a diretoria da Adufes solicitou  direito à fala durante a sessão extraordinária virtual . Em sua intervenção, a presidenta da Adufes, Ana Carolina Galvão, argumentou contra  encaminhamento que estava em pauta.

Ana apontou  a inconsistência da manutenção do calendário e da recomendação de atividades extracurriculares (ainda que não obrigatórias), face ao agravamento da crise em todas as esferas, reivindicando  deliberação semelhante  à de  27 outras universidades federais, que já suspenderam o calendário acadêmico. Citou mensagem enviada pelo professor João Carlos Salles   reitor da Universidade Federal da Bahia e Presidente da Associação Nacional de Dirigentes das Instituições de Ensino Superior (Andifes), em que, dirigindo-se à comunidade da UFBA, ressalta a condição insubstituível do  ensino presencial e a importância de se ter levantamento sério das condições em que se dão ações remotas.

Atividades remotas, NÃO.  Na 1ª reunião do Conselho Universitário, bem como em outras oportunidades, a diretoria da Adufes tem apontado os prejuízos  de se recorrer a atividades por meios digitais em substituição às atividades presenciais, tendo em vista quem nem todas/os as/os professoras/es e estudantes dispõem de tecnologia e acesso à internet. “Nossa convicção está alinhada também às posições do ANDES-SN e SINASEFE, que também avaliam ser  impossível insistir em manter a normalidade dentro das instituições, que  devem estar 100% fechadas”, frisou Ana durante a sessão do Cun.

Ela lembrou que o Sindicato teve reuniões na semana passada com Reitor, Vice-reitor, Pró-reitores e Comissão de Legislação e Normas (CLN) do Conselho Universitário e que a entidade também acompanhou a última reunião da Câmara de Graduação.

“Foi com muita decepção que recebemos a proposta de alteração da resolução”, criticou Ana, destacando que  a proposta da CLN, votada na sessão dessa segunda, é totalmente contrária ao que vinha sendo proposto pela Adufes. 

“O verdadeiro estabelecimento de diálogo não implica somente “ouvir”, receber propostas. O verdadeiro diálogo depende da disposição para mudanças, para refletir sobre posições, para assumirmos juntos responsabilidades com a universidade que queremos”, destacou a presidenta da Adufes, reiterando incisivamente o pedido de  suspensão do calendário acadêmico e recomendando a convocação de sessão extraordinária do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) para deliberar sobre a matéria, uma vez que tal decisão não compete ao CUn.  

A Adufes apontou o contraditório em vários artigos da proposta de Resolução que estava em pauta. A um só tempo, criam-se precedentes para monitoramento de realização por parte dos docentes de atividades não presenciais e com isso se produz desigualdade entre docentes e estudantes que têm e aqueles que  não têm acesso aos meios virtuais. Considere-se ainda o cotidiano excessivamente alterado dos domicílios, em que estudantes, servidores técnico-administrativos e docentes não raro têm idosos e crianças sob seus cuidados, além estarem suscetíveis a problemas emocionais que a intensificação da crise gera ou aumenta.

Veja a Intervenção da presidenta da Adufes na sessão do CUn

Terceirizados.  A situação dos terceirizados, que continuam trabalhando mesmo durante a pandemia, também foi pautada. O próprio Comitê Operativo de Emergência (COE) da universidade já indicou no plano de contingenciamento a necessidade de escalonamento dos trabalhadores, mas não é isso que está ocorrendo. Os terceirizados estão nos campi da Ufes cuidando da limpeza, jardinagem, e outras atividades, e utilizando transporte coletivo em seus deslocamentos em um momento em que as autoridades de saúde pregam o isolamento social. 

“Não há nenhuma indicação a respeito de escalonamento, nem na Resolução n. 04/2020 e nem na proposta votada na última sessão. São mulheres, trabalhadoras precarizadas, muitas com mais de 60 anos, diabéticas, hipertensas, que vivem em habitações com diversas outras pessoas, que pegam ônibus para trabalhar”, pontuou Ana, destacando também que “parece que não há um controle sobre esse planejamento que proteja e garanta remuneração e estabilidade a elas. A vida delas também importa! E o não isolamento do máximo número de pessoas também, para a contenção da disseminação do vírus”.

Na avaliação da Secretária-geral da Adufes, Junia Zaidan, essa resolução vai na direção contrária da universidade que queremos. “Historicamente, a universidade nunca foi para todos; nossa luta é não deixar que ela funcione a partir de uma racionalidade tecnocrática, que invisibiliza a profunda desigualdade que nos constitui e nos torna peças de uma engrenagem que supostamente não pode parar.”

Ao final de sua fala na sessão do Cun, a presidenta da Adufes alertou conselheiras e conselheiros para sua responsabilidade com a Ufes e com a sociedade. “Nós precisamos ter coragem para tomar posições que não se curvam, que não temem e que não abrem mão de manter a dignidade da universidade”. Segundo Ana, nesse momento, é preciso tratar a universidade com coerência com os discursos sobre a democratização da educação, sobre educação de qualidade e principalmente, com respeito pela vida. 

Fonte: Adufes 

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