O ensino remoto, a pandemia, a alienação e o produtivismo

`Por Edson Cardoso*

Acertando o foco: com a pandemia Covid-19 o sistema de Ensino Básico e Superior do Brasil se viu no dilema "precisamos fazer alguma coisa" com o ensino. O que fazer com os e as estudantes?

O ensino básico já embarcou no remendo excludente. As Secretarias de Educação dos Estados estão na miscelânea de ensino remoto, tele aula, EaD e outras precariedades "pedagógicas" a serviço da péssima qualidade de ensino. Tudo sob o viés da privatização e obscurantismo. Só para saber, pergunte, hoje, para os alunos e alunas do Ensino Básico se estão gostando do que estão fazendo no ensino remoto, tele aula ou EaD.

"A maior parte dos secretários, especialmente os estaduais, nunca trabalharam em escolas públicas, nunca leram um clássico da Pedagogia. Os secretários municipais são razoavelmente melhores. A verdade é que governadores e prefeitos, salvo raras exceções, escolhem pessoas incompetentes para gerir a área. Evita o que eles acham que é um problema: gestores que querem pagar bons salários e dotar as escolas de condições pedagógicas para o processo de ensino-aprendizado. Competência pedagógica é um perigo para o projeto de descaso com a educação."(Daniel Cara)1.

Os bárbaros que estão a fim de invadir o Ensino Básico já embarcaram no semiprivatizado Ensino Superior. Entre 2008 e 2018, as matrículas de cursos de graduação a distância aumentaram 182,5%, enquanto na modalidade presencial o crescimento foi apenas de 25,9% nesse mesmo período. Metade dos cursos de licenciaturas no Brasil são na modalidade EaD2 (Inep/MEC).

Feito este prólogo vamos ao foco.

O "precisamos fazer alguma coisa" que ouvi recentemente de alguns colegas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em tempos de pandemia (no Brasil 1.603.055 casos de contágio e 64.867 óbitos em 06/07/2020 - Johns Hopkins University3) tem o nó górdio no ensino remoto.

O que fazer? Qual a alternativa para o ensino neste tempo de pandemia?

Não pretendo desatar o nó górdio, mas lembrei de duas referências: a) sobre alienação em "Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844" de Karl Marx4 e b) o filme "Tempos modernos", de Charles Chaplin5. Explico.

Sobre a alienação.

Voltando no tempo. Em 1998 ocorreu uma greve nacional das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES). Foram 51 IFES e 104 dias de greve, de 31/03 a 13/07/1998. Na época não me lembro de docentes preocupados com o "precisamos fazer alguma coisa" com o ensino.

A pauta da greve: além de reajuste salarial (48,65%), a retirada do Programa de Incentivo à Docência GED (Gratificação de Estímulo à Docência) como adicionais de remuneração aos docentes.

A GED correspondia à contabilização produtivista de artigos, livros etc. na carreira docente. Era a mercantilização no trabalho universitário. Fomos derrotados neste quesito. Mas devido à forte repercussão da greve, posteriormente a GED foi eliminada pelo MEC.

Conseguimos derrotar a GED na carreira docente, mas mercantilização do trabalho docente continuou. Estávamos no ambiente da universidade operacional.

Marilena Chauí6 identifica três momentos que levaram a essa transformação, culminando na universidade operacional, no Brasil. “O primeiro deles, nos anos 1970, deu-se quando, a partir de mudanças curriculares, surge a chamada universidade funcional, voltada para a formação rápida de mão de obra qualificada para o mercado. Nos anos 1980, tem-se a universidade de resultados, pouco interessada em docência e voltada para pesquisas, adotando o modelo do mercado afim de determinar sua qualidade e quantidade. Em meados dos anos 1990, é quando surge, finalmente, a universidade operacional, voltada para si mesma como estrutura de gestão e de arbitragem de contratos”. E hoje continuamos assim. Uma universidade submissa à vontade de outrem (heteronomia), com a ausência de autonomia e voltada ao seu próprio umbigo sem saber onde seu umbigo se encontra (Chauí7).

E onde está a alienação?

Em 1992 quando eu participava da direção nacional do Andes Sindicato Nacional um colega da direção (Silvio Allen) dizia que somos um sindicato diferente, pois nos preocupávamos com o resultado do nosso trabalho. É por isso que, ainda hoje, o sindicato, para além do salário, carreira e condições de trabalhos, pauta a universidade e mais justiça social com menos desigualdades.

Não é o que acontece com a universidade que se preocupa com seu próprio umbigo.

O Lattes é a contabilização do nada? Sim, mas em termos. É correto quando se diz respeito às contribuições realmente inéditas para ciência, arte e cultura. O Lattes contabiliza "produtos" que servirão para um ranking a ser considerado para financiamento de novos projetos, bolsas de pesquisa, viagens a congresso etc. É a lógica do financiamento vinculado à "avaliação".

O trabalho feito e contabilizado servirá para outrem definir a vida de quem o produziu. Assim o produto se descola do produtor. Há uma despossessão. O produto do trabalho representa um valor. E este valor corresponde a uma moeda de troca: a inclusão no famigerado ranking. Aí está a alienação.

"A alienação em relação ao produto do trabalho. Este é o estranhamento em não se reconhecer num produto que tem dentro de si a essência do trabalhador. É a pobreza gerada ao trabalhador enquanto, ao mesmo tempo, se gera a riqueza do capitalista. Quando o produto está feito, só resta ao trabalhador exigir um salário no fim do mês. Este tipo de alienação é aquela que o programador passa após terminar uma rotina para um dado sistema administrativo de uma empresa. Após modificar aquele software, realizar transformações para adaptá-lo ao cotidiano da empresa que o adquiriu, ele não pode reivindicar o produto do trabalho como algo dele. A modificação foi um serviço garantido pelo contrato entre empresa contratante e empresa contratada (e entre empregador e empregado)" (Vinicius Siqueira8).

Sobre "Tempos modernos" de Chaplin

Automação e Taylorismo uma combinação explosiva. É parte do tema do belo filme de Chaplin. Porque me lembrei deste filme? Porque lembrei do Fordismo científico9.

"Em meu trabalho por três anos como Editora Geral da revista Psicologia em Estudo, foi comum o recebimento de mensagens de autores angustiados em saber sobre a tramitação de seus artigos, pois sua aprovação ou não punha em risco a conclusão de sua pós-graduação (mestrado ou doutorado). Professores pesquisadores de séria produção científica também escreviam, preocupados com isso devido às pressões impostas pelos programas de pós-graduação a que estavam vinculados, pois tinham que atestar uma boa quantidade de artigos produzidos em um determinado triênio, sob pena de serem deles sumariamente desvinculados, a despeito da solidez de suas pesquisas e da qualidade de suas aulas ou orientações - estas últimas, fundamentais para a formação de profissionais e pesquisadores compromissados eticamente com a ciência" (Silvana Calvo Tuleski10).

Epílogo

O "precisamos fazer alguma coisa" é pertinente, mas não como alternativa binária ao ensino precarizado e aligeirado. Estudantes têm condições da telemática de conviver com esta alternativa? Docentes estão preparados para trabalhar nestas condições? Vamos repetir a experiência do que está ocorrendo no Ensino Básico? O fingir que ensina e o fingir que aprende?

Os professores e as professoras estão em atividade nesta pandemia. Além dos afazeres domésticos estão realizando atividades possíveis na pesquisa, na extensão e nas atividades administrativas. E em relevantes trabalhos assistenciais circunscritos ao âmbito da pandemia. Aí sim temos um mínimo de qualidade e competência nos serviços que prestamos à sociedade. Serviços não alienados.

"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence”. (Bertolt Brecht)11

NB: outra referência consultada sobre alienação

Tumolo, Paulo Sergio - UFSC, Trabalho, alienação e estranhamento: visitando novamente os "Manuscritos" de Marx, Anped / GT Trabalho e Educação nº 09 http://27reuniao.anped.org.br/gt09/t0916.pdf

     Edson Cardoso -  professor aposentado do Centro Tecnológico da Ufes

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Fonte: Adufes 

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