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Brasil não está preparado para coronavírus, mas SUS é nossa maior arma

Por Professor Thiago Dias Sarti*

Provavelmente o Brasil viverá nas próximas semanas um dos maiores desafios em termos de saúde pública de sua história.

Que essa crise sirva ao menos para que nossa população não caia mais em discursos falaciosos que buscam deslegitimar o SUS como um dos pilares de nossa sociedade.

Os brasileiros sabem bem o que é viver sob a ameaça de doenças que teimam em mostrar a cara diante de nossos fracassos civilizatórios.

É difícil encontrar alguém que não saiba minimamente o que é malária, febre amarela, doença de Chagas, dengue, tuberculose e tantas outras doenças que em alguma medida afetam a todos, mas que deixam cicatrizes profundas na vida dos mais vulneráveis.

Agora bate a nossa porta um novo vírus. Na maioria dos casos, sua repercussão na saúde é leve. Mas sua elevada capacidade de transmissão pessoa a pessoa faz com que o número de acometidos seja grande o suficiente para produzir um curto-circuito social.

O drama é de tal magnitude que, esperamos não se concretizar, a Itália cogita recusar atendimento a pessoas com mais de 80 anos.

Até agora os países que apresentaram os melhores resultados no combate ao Covid-19 foram aqueles que adotaram medidas intensivas de testagem em massa das pessoas e restrições ao convívio social, fechando escolas e serviços não essenciais e impedindo a livre circulação de pessoas.

Tais medidas não são isentas de críticas, devido ao seu caráter autoritário que pode dar margem a abusos de poder, exclusões e estigmas que afetam grupos sociais que poderão sofrer de forma mais aguda as consequências da epidemia.

E o Brasil? A pergunta que não quer calar é se estamos preparados para enfrentar o problema. A respostas me parece óbvia: não, não estamos preparados. Ninguém no mundo está. E nossas mazelas sociais colocam ainda mais dúvidas sobre o comportamento do vírus nestes trópicos e nossa capacidade de resposta.

Estratégias de lockdown aqui não são mais complexas que em Hong Kong. Mas há algo do qual o Brasil precisa se orgulhar e que será nossa principal estratégia de combate: nosso tão combalido SUS. Cronicamente sucateado, o SUS é a principal política de proteção social deste país.

Já passou da hora de entendermos que, em um país tão desigual, a ausência de um sistema público de saúde universal é sinônimo de caos e barbárie.

Apenas o SUS tem a capacidade de prestar atendimento a um número de pessoas adoecidas que talvez alcance patamares nunca visto. Se precisarmos de testes diagnósticos, é o SUS que os produzirá.

Há algo que será central nessa epidemia e que o SUS traz como seu pilar. É no sistema público de saúde que temos a maior força de trabalho em saúde do país. Estão em Unidades Básicas de Saúde, hospitais e laboratórios públicos as pessoas que, mesmo com baixos salários, segurarão o rojão.

Veremos em breve que, mesmo nas condições mais adversas, será nas pessoas que constroem diariamente nosso sistema público de saúde que encontraremos as principais respostas para a epidemia. É nosso dever valorizá-las. 

*Thiago Dias Sarti é médico e professor do Departamento de Medicina Social da Ufes. Artigo publicado recentemente no site da Ufes e em A Gazeta (18/03/2020).

Foto: Divulgação

 

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Fonte: Adufes

TRÊS ANOS DA CARNIFICINA DO ESPÍRITO SANTO

Em fevereiro de 2017, o estado do Espírito Santo escreveu uma das páginas mais tristes e perversas de sua história: entre números oficiais ou não, lamentamos mais de 300 mortos durante a greve da Polícia Militar do ES. Ocasionada pelas queixas dos policiais relacionadas aos salários e condições de trabalho, promoveu-se uma chacina autorizada pelo aparato estatal que nada fez para que o movimento paredista terminasse imediatamente.

Lembremos que à época, o Governador Paulo Hartung ilustrou a situação comparando-a com um ‘sequestro da população’ e indo na contramão das recomendações do seu próprio exemplo, afirmou que não negociaria, deixando a população à deriva por semanas. No entanto, quais foram as consequências do ‘não pagamento do resgate’? Quem foi o povo que morreu? Quem são as pessoas que foram atingidas pela carnificina de 2017? Foram os moradores das periferias, aqueles que vivem nas comunidades humildes e que sofrem diuturnamente com a ação de um Estado cada dia mais truculenta e abusiva.

A ampliação de uma política de morte e encarceramento é fato no Espírito Santo, a exemplo da presença da Força Nacional de Segurança em Cariacica, do frequente crescimento de investimento em presídios, do encarceramento em massa da juventude pobre e preta, da dispensa de profissionais das áreas de saúde e assistência social no setor de formação e RH do IASES, do aumento do adoecimento desamparado da própria PM, que tem levado integrantes da corporação ao suicídio velado e não notificado.

O Governo do Estado tanto em 2017, quanto agora, em 2020, nada fez para reparar as famílias das vítimas pela perda de seus entes queridos. Nenhum dia de luto foi decretado pelos mortos da chacina daquele fevereiro sombrio. As políticas de austeridade de antes, como de agora, só amplificam os problemas vivenciados ao escamotear as reais dificuldades sociais, com políticas de segurança pública que vão de encontro aos preceitos fundamentais de direitos humanos. 

Nesse sentido, os sentimentos armazenados daqueles dias infelizes, de três anos atrás, não estão apenas na memória dos capixabas, estão na vida de carne e osso de cada família que perdeu seus filhos, pais, amigos e parentes. Os milhões de prejuízos materiais não se comparam a uma única vida retirada, ceifada, eliminada. TODOS são sujeitos de direitos e merecem acesso a bens, serviços, mas principalmente, humanidade. 

Só com justiça e reparação poderemos superar, sem jamais esquecer, o fantasma de fevereiro de 2017.

Vitória, 04 de fevereiro de 2020

FÓRUM CAPIXABA DE LUTAS SOCIAIS

Fonte: Adufes

Senado aprova PEC paralela que inclui estados e municípios na reforma da Previdência

Com 56 votos a favor e 11 contra, o Plenário do Senado Federal aprovou em 1° turno, no dia 6/11, o texto principal da chamada PEC Paralela (PEC 133/2019), que estende a estados e municípios a reforma da Previdência. É mais um golpe nas aposentadorias dos trabalhadores brasileiros.

A PEC paralela traz algumas diferenças (veja no final deste texto) com a PEC 06/2019 aprovada em outubro em caráter definitivo no Senado, mas em essência traz o mesmo duro ataque às aposentadorias de trabalhadores públicos estaduais e municipais.

Há exigência de idade mínima, aumento no tempo de contribuição, redução no valor dos benefícios e restrições no acesso à benefícios do INSS, medidas que vão praticamente impedir que milhões de trabalhadores se aposentem a partir de agora.

Pelo texto aprovado nesta quarta-feira, a inclusão de estados e municípios na Previdência deve ser feita por meio de um projeto de lei ordinária de iniciativa dos poderes executivos locais e que terá de ser aprovado pelas assembleias legislativas e câmaras municipais.

O estado ou município pode recuar das alterações nas aposentadorias e sair do regime. Porém, a PEC limita o prazo para essa revogação da reforma a até seis meses antes do fim do mandato do respectivo chefe do Poder Executivo, o que também deve ser feito por lei ordinária.

Caso o estado aprove a nova regra, o município estará automaticamente incluído no regime estadual. Porém, as regras podem ser revogadas por meio de lei municipal.

A aprovação desta PEC paralela é mais uma demonstração que o governo de Bolsonaro/Mourão e este Congresso de picaretas seguem a todo vapor para acabar com o sistema de Previdência pública e social no país e com o pagamento de aposentadorias. Tudo para desviar dinheiro para os juros da Dívida Pública.

A PEC paralela foi uma estratégia do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), relator da matéria, juntamente com o governo Bolsonaro, para fazer mudanças na reforma da Previdência.

Qualquer alteração pelo Senado na PEC principal da Previdência, que havia sido aprovada na Câmara, obrigaria o texto a voltar para análise dos deputados, o que poderia atrasar a promulgação. Com isso, Tasso decidiu que mudanças no conteúdo da matéria, como a inclusão de estados e municípios, fossem analisadas em uma outra PEC. Uma manobra para arrancar ainda mais direitos dos trabalhadores brasileiros.

Ataque aos mais pobres, privilégios aos mais ricos. Enquanto eles seguem atacando a aposentadoria dos mais pobres, os privilégios seguem sendo mantidos para os de sempre. A reforma da Previdência dos militares, aprovada semana passada pela Comissão Especial, é um escárnio com a maioria da população.

As regras para os militares e policiais são bem mais brandas em relação à reforma para os trabalhadores do setor privado e público e, mais do que isso, garante privilégios para a alta cúpula das Forças Armadas.

Leia mais: Reforma da Previdência de militares privilegia cúpula das FFAA

Também nesta quarta-feira (6), a Câmara rejeitou o recurso para que o texto fosse votado no plenário da Casa. Com isso, o projeto seguirá diretamente para o Senado.

Tramitação das propostas

A PEC paralela terá de passar pela votação de destaques e por um 2° turno de votação no Senado, o que deverá ocorrer já na próxima semana. O projeto de reforma dos militares também seguirá para votação no Senado.

Já a Reforma da Previdência (PEC 06/2019) será promulgada numa sessão conjunta do Congresso no próximo dia 12, passando a valer imediatamente.

“Se depender deste governo e dos picaretas da Câmara e do Senado, a Previdência Social será destruída. O modelo que eles defendem é ultraliberal, ou seja, de destruição do papel do Estado e desmonte de políticas públicas. Tudo para favorecer os setores privados e desviar dinheiro para pagar a Dívida Pública a banqueiros”, denuncia a dirigente da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas e servidora estadual do Rio Grande do Norte Rosália Fernandes.

“É o mesmo modelo aplicado no Chile, que levou os trabalhadores e a população mais pobre à miséria, inclusive a um aumento de suicídio de idosos. Não podemos permitir que Bolsonaro e Mourão apliquem isso aqui. O único caminho para os trabalhadores brasileiros é a luta, tomar as ruas. Nos estados e municípios impedir que esta reforma seja aplicada. Lutar pela revogação das reformas já aprovadas. Precisamos intensificar a mobilização e construir uma Greve Geral”, afirma a dirigente.

“A CSP-Conlutas defende a unidade para lutar e a construção de um encontro nacional de lutadores, para organizamos nossa luta e ir pra cima deste governo”, disse Rosália.

Confira algumas alterações da PEC paralela válidas para estados e municípios:

Profissionais da segurança: possibilidade de estados e municípios estabelecerem regras diferentes (idade e tempo de contribuição) para peritos peritos oficiais de natureza criminal, guardas municipais e oficiais e agentes de inteligência.

Transição para mulheres: no caso de aposentadoria por idade, o texto prevê idade mínima de 60 anos a partir de 2020 com transição gradual de 6 meses a cada dois anos, até atingir 62 anos.

Tempo de contribuição para homens: prevê tempo mínimo de contribuição de 15 anos, inclusive para os homens que ainda vão ingressar no mercado de trabalho.

Pensão por morte: define que nenhum pensionista terá renda formal inferior ao salário mínimo. Tasso acatou emenda para que esse benefício fique estabelecido, também, no caso de servidores estaduais e municipais.

Fonte: CSP-Conlutas

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